segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cleópatra #5

Cleópatra, o fanzine sem fim!

Desde meados de março ou antes já nem sei precisar, que andava a fazer um fanzine sobre o cinema, sobre o que é trabalhar num cinema, o meu trabalho nas Caldas da Rainha, imaginando siatuaçoes em que ia ao cinema com o Bergman, o Tarkovski, o Truffaut e o Oliveira (sabe-se Deus porquê agora apoia a candidatura do Cavaco) ver aqueles filmes odiosos. Este fanzine doloroso, com um tempo de gestação quase igual ao de uma criança, custou a ficar terminado, largas interupções na sua feitura, chegou a estar perdido quando estava quase acabado, deixando-me desesperado e quase que prometi nunca mais fazer nenhum fanzine, no final como de costume foi parido à pressa, espero que daqui a um tempo tenha relamente tempo para fazer uma capa a cores. Deixo-vos aqui um texto de apresentação, umas fotografias da "Feira Laica" onde apresentei o zine no dia 10 deste mês e umas imagens com o aspecto do interior e capa do mesmo.


"Passados 19 meses desde que publiquei o número 4 cá está este novo número. Muitas coisas aconteceram desde esse longínquo mês de Maio de 2009. Algumas coisas com mais importância outras mais ordinárias, uma das coisas que me aconteceram foi trabalhar durante quase uma ano e meio num cinema nas Caldas da Rainha. Um trabalho tão digno como qualquer outro, tão normal como qualquer outro, tão mal pago como qualquer outro, com um patrão tão sacana como em qualquer outro trabalho, em que só vês a cara de quem te paga passados muitos meses, porque o senhor patrão pensa que não deve nada ao empregado, nem sequer apresentar-se. Um emprego em que se faltares ao trabalho durante dias é mau, mas se por acaso o pagamento da esmola ao fim do mês se atrasar não há problema algum! Bem, voltando ao cinema, é um cinema de uma cidade de província com uma programação adequada aos interesses e expectativas da maior parte da população. Uma programação obscurantista, que serve os interesses económicos dos distribuidores. Uma programação agonizante e agonizada. Uma programação que não dá oportunidade de escolha, monopolizadora. A escolha deste tipo de programação nem sempre se deve directamente aos trabalhadores dos cinemas, são ordens que vêem por e-mail dos directores e administradores das cadeias de cinemas e das grandes distribuidoras que minam qualquer possibilidade de projectar num cinema comercial pequeno ou grande um filme que fuja às características dos filmes que geram dinheiro, que ofereçam experiência sensível alguma ao espectador. Nada pode ser diferente. Nada nestes filmes pode fugir à estética, à formula infalível daquilo que faz do cinema não uma arte, ou uma experiência sensível mas, um rio alienado e descontrolado de dinheiro, ganância e vedetismo, uma máquina geradora de falsidades e simulacros. Com toda esta frustração que senti decidi aproveitar este material, fazer alguma coisa com esta experiência, com esta situação com que tinha de lidar para receber uns trocados para pagar a minha sobrevivência.
Com estas pequenas histórias não pretendo fazer uma investigação, ou formar um discurso sério e realmente bem fundamentado sobre o cinema, a sua génese, o seu propósito, sobre a sua capacidade de comunicação ou se deve ser formalmente mais assim ou daquela maneira, se deve abordar este ou aquele tema. Estas pequenas bandas desenhadas são somente situações fictícias de como seria se fosse ver aqueles filmes para os quais vendi tantos bilhetes com alguns dos meus realizadores preferidos.
Este fanzine é uma tentativa de digestão de toda esta experiência, de toda esta indignação perante o estado do cinema em Portugal (e da cultura em geral), porque lidei com isso directamente, com os filmes que passam nas salas, com as pessoas que os vão ver. Porque fico indignado com a quantidade de salas que existem em relação à qualidade e diversidade de filmes que existe; porque me incomoda um DVD de um filme chegar a custar 20, 30 e mais euros e, pensar que uma pessoa que recebe o ordenado mínimo ou pouco mais com as despesas ofegantes mensais não consegue comprar esse filme para o ver em casa; porque não aceito que exista uma Cinemateca Nacional só na Capital, quando as pessoas esquecidas numa cidade interior não têm acesso a uma sala com uma programação regular e digna; porque me irrita um empregado de cinema ganhar uns míseros 500 euros e ficar com vapor do caramelo das pipocas a correr-lhe pela cara a baixo e as receitas ao fim desse dia serem de mais de 10 vezes o seu salário mensal (uso este exemplo porque é o meu, tendo noção de que a maioria dos trabalhadores encontra-se na mesma situação ou pior); porque me deixa triste não haver financiamento para os realizadores avançarem com a sua prática; porque me deixa enervado a declarada e vergonhosa falta de interesse político em educar a população, deixando-a entregue ao emagrecimento cultural, à ignorância e atrofiamento intelectual, remetendo as populações a um cerco de desinteresse, receio e posteriormente até, agressividade face ao progresso a todos os níveis (económico, social e cultural), enfraquecendo a sua capacidade de gerar e compreender a sua identidade.
Por tudo isto este fanzine foi feito, por tudo isto e ainda mais, temos que nos esforçar para promover o interesse na área cultural, por isto devemos exigir dos poderes políticos uma real mudança na vida das pessoas, por isto devemos envolver-nos uns nos outros.
Espero assim que a próxima vez que o olho de luz se abra, projecte nas pessoas alguma sensibilidade, alguma vontade."







3 comentários:

Anónimo disse...

como posso comprar? assuriano@yahoo.com

Gab disse...

Hey, como e onde os posso adquirir? Também queria os anteriores...
Boa sorte para o teu projecto e não desistas!
glassjam@gmail.com

Ogata Tetsuo disse...

Também os gostava de adquirir para a fanzinoteca que vai ser inaugurada a 4 de Fevereiro em Coimbra.